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O SHOW DO COMÉRCIO DO CAMPINARTE

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Zeca Pagodinho conta as maiores emoções que viveu em seus 30 anos de carreira - TV e Lazer

Entre os versos de “Camarão que dorme a onda leva”, uma sentença: malandro tem que se ligar pois “hoje é dia da caça, amanhã, do caçador”. Isso sem perder o humor, nem o amor. O samba, entoado por Zeca Pagodinho e feito em parceira com Arlindo Cruz e Beto Sem Braço, encontrou eco em Beth Carvalho, que pescou o sambista no Cacique de Ramos e o levou para gravar a música no disco “Suor no rosto”. Trinta anos após essa “pescaria”, Zeca celebra sua carreira reproduzindo a capa do álbum da cantora (feita pelo artista plástico Elifas Andreato) na Canal Extra e lançando o DVD “Vida que segue”. Nesta entrevista, ele revê histórias de 54 anos de vida e 30 amigos e parentes o descrevem como um camarão bem vivo, que tira onda no oceano do samba.


CANAL — Beth disse que a sua primeira gravação em “Camarão que dorme...” foi com um microfone de ouro.
ZECA PAGODINHO — É verdade, tinha isso mesmo, mas o meu maior desejo era botar aquele fone no ouvido... (ele muda de assunto). Estou com um sapato furadinho, os mosquitos entram nele para me morder! Os mosquitos da Barra são f.., tarados, entram na cueca do indivíduo!
Mas voltando, ficou nervoso?
Não. O Rildo Hora que botava medo na gente. Fiquei nervoso quando me apresentei com a Beth. Ia cantar na quinta música. Deu dor de barriga. Só cantei na 13ª. Batiam na porta e eu gritava: “Pula mais uma”. Foi uma m... pra cantar. A coisa foi feia.
Perdeu o pânico do palco?
Nada. Em outro show da Beth, no Asa Branca, me chamaram no camarim e falaram: “Toma um uísque, bota uma roupa só pra ver se vai dar”. Quando vi, estava em cena com a Beth. Cantei bem, fui aplaudidíssimo, mas briguei com uma namorada no fim do show e acabei preso. Fui do palco para o xadrez da 5ª DP (Lapa). E foi o Fundo de Quintal todo lá para me soltar: Ubirany, Bira Presidente, que doideira!
Como virou cantor sendo assim?
Não imaginava nada para minha vida. Tinha vergonha, não me achava capaz. Ainda não me acho. Gravo pensando: “Isso não vai dar certo”. E acaba dando. A vida é que foi me levando. Só queria mesmo ouvir a minha música nas rádio na voz dos outros. Mas “Camarão que dorme...” foi uma porrada. Ali, arrumei tanto parente. Tudo duro. Nenhum rico apareceu (risos).
E hoje o frio na barriga passou?
Para pisar no palco não sofro mais. Só não pode ser estreia, lançamento. Estreia é injeção, é sempre um inferno. Fico rouco, com febre, doente, achando que não vou conseguir cantar. Aliás, já tomei a minha injeção desse disco (mostra o braço esquerdo com o curativo). Agora só no outro álbum. Para esse já estou vacinado (risos).
E o primeiro show da turnê onde vai ser?
Não sei de nada disso. Eu gosto é de andar na rua, tomar minha cerveja, ver meus amigos. Só me falam: “amanhã você tem que ir pro aeroporto”. Quando chego lá, descubro para onde vou...
E tem algum ritual pré-show?
Evito beber, procuro ficar calado para entrar com gás e não gosto de saber de notícia de ninguém. Acham que é frescura, mas tem gente que entra no camarim e fala: “Fulano morreu, deram tiro lá na portaria”. Deixa, que depois eu vou saber...
Na gravação do novo DVD, você trocou a cerveja por vinho...
Quando você viu isso, eu estava rouco. Quando começo a beber cerveja, não paro mais. Se eu começar a beber agora (eram 15h), só paro à meia-noite.
E como é seu processo de composição? É como antigamente?
Claro que não. Antigamente, ia na casa do Arlindo (Cruz), chegava lá ao meio-dia, saía às 16h, com cinco músicas prontas. E isso só com uma cerveja e dois cigarros a varejo. A gente ficava com aquele copo rendendo (risos). Agora, onde a gente vai tem uma caixa de cerveja, uísque. Eu tinha um editor de músicas que, ao me pagar, dizia: “Você vai ficar rico e vai perder a inspiração. Compositor tem que ficar na chuva, a mulher bota para fora de casa. Isso é que inspira”. Ele tinha razão, você fica acomodado.
Como é a escolha de repertório?
É um inferno, mas a música tem que ser boa para entrar. Tem compositor que fala: “Estou precisando gravar contigo porque meu telhado caiu, porque estou com câncer...”. E eu digo: “Bota a música aí. Se for boa, entra, senão, até ajudo com remédio ou no telhado. Mas não vou gravá-la porque você está com câncer”.
O Bira Presidente rezava no estúdio quando você ia gravar disco?
O Bira é o cacique do Cacique de Ramos. Na tamarineira plantada lá tem uma reza da mãe dele. Ele sempre foi o representante espiritual daqueles que vieram do Cacique.
Dizem que você é um cara muito grato...
A Velha Guarda da Portela todo ano tem que estar nos meus discos. Isso porque, na realidade, comecei a frequentar roda de samba no Pagode da Tia Doca (em Madureira) e aprendi muito com a Velha Guarda da antiga com Casquinha, Manacéia, Chico Santana, Argemiro. Eles falavam: “Deixa esse menino cantar”. Tia Doca pedia: “Canta aí, Zequinha”. O Monarco eu vi pela primeira vez no 261 em Del Castilho. Entrei no ônibus só para conhecê-lo. Conversamos, mas não pude ir longe. Não tinha dinheiro para voltar. Fui até Pilares e voltei a pé.
E qual a importância do produtor Max Pierre na sua carreira?
Não tem A.C, antes de Cristo? No meu trabalho, tem antes e depois de Max. Ele deu dignidade ao meu samba, caprichou nos arranjos. Passei a fazer samba elegante.
Como não se iludir com a fama?
É mais difícil ser difícil do que ser fácil. Eu tenho orgulho do que faço, mas não boto banca... Prefiro ser assim, de vez em quando visto um Armani. Mas gosto mesmo de camiseta, bermuda e chinelo. Ando de ônibus, van. Temos motorista, mas se vejo um amigo saindo de carro, pergunto para onde está indo. Todo mundo dá carona. Às vezes, paro no botequim, bebo, bebo, bebo e até que chega um amigo de carro e me leva para casa.
Gosta de futebol?
Não vejo jogo. Gosto da festa. Tenho um filho flamenguista, um vascaíno e sou botafoguense. Então, se um dos três ganhar, está bom. Não sou doente, não sei julgar nada, nem escola de samba. Sou igual ao Caetano (Veloso): “É tudo lindo!”.
E o que te estressa?
Muita coisa: calúnia, ingratidão, ver criança jogando bolinha no sinal, essa garotada se matando por causa de briga de torcida. Também me irrita ver meu país afundando em desgraças, uma roubalheira danada. Não rola uma passeata bacana pela saúde, educação, pelo desemprego. As pessoas só se revoltam com coisas banais, sem necessidade.
Essa revolta fez você ajudar as pessoas nas chuvas de Xerém?
Se você estivesse lá, ajudaria também. Meus vizinhos ajudaram. Por eu ser o Zeca Pagodinho, deu mídia. Na minha casa tinha mais de 40 voluntários.
Você tem bom coração, mas alguém já se aproveitou disso?
Sim, mas o castigo não vem para mim. Faço a minha parte. Em Xerém, uns caras levaram uma coça dos moleques porque encheram um fusca com 15 cestas básicas doadas para vender. Tinha um cara que falava: “Desse arroz eu não como”. O ser humano é complicado...
E qual seu sonho?
A vida eterna! Vejo tantos amigos morrendo. Isso me deixa triste. Até porque vai chegar a minha hora. A Nana Caymmi disse no enterro do Emílio Santiago: “Está morrendo todo mundo, quando eu morrer não vai ter ninguém para ir no meu enterro”. Ela está certa.
Qual foi o momento mais bacana da sua carreira? E o pior?
Foram tantas emoções. Mas teve um pior momento que virou o melhor. Fiquei rouco num show no Credicard Hall (São Paulo). O lugar parecia um castelo, lotado, e fiquei apavorado quando vi aquilo. Mas a plateia cantou o tempo todo comigo, fez o show para mim. Eu só ficava olhando, emocionado, triste, sem saber o que fazer naquela situação inusitada. Sou bem recebido em qualquer lugar aonde vou, não só no palco. Esse é meu grande troféu nesta vida.
E como é o assédio feminino? Elas passam do limite?
É uma beleza! Eu adoro um cheirinho aqui, ali! Ninguém morre disso, não. Pelo contrário, vive mais ainda! Não tenho do que reclamar.