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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Catadora relembra 'massacre de autoestima' em lixão de Gramacho

"Difícil não foi conviver com o lixo, difícil foi não virar lixo." Assim Gloria Cristina dos Santos resume o que enfrentou durante os 14 anos em que trabalhou como catadora no antigo aterro sanitário de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro.
Gloria no polo de reciclagem
Aos 39, ela lembra com lucidez os momentos mais marcantes de uma época de sofrimento e superação.
Sua trajetória começa aos 11 anos, quando ela pisou no lixão pela primeira vez para levar a marmita da mãe, a primeira da família a trabalhar no aterro.
Dali, ela só sairia aos 25 anos, para integrar a diretoria da primeira cooperativa de catadores de lixo de Jardim Gramacho. Com o fechamento do lixão, em junho de 2012 – então o maior da América Latina -, Gloria se destacou como uma das lideranças entre os catadores e hoje está à frente do Polo de Reciclagem de Gramacho, que emprega antigos catadores – iniciativa pioneira no Brasil.
Nas memórias inocentes da Gloria ainda menina, o lixão era "colorido" e um "parque de diversões ambulante", onde era farta a oferta de bonecas e tantos outros brinquedos.
Com o passar dos anos, o parque foi ficando mais parecido com um trem fantasma diante das frequentes cenas de "filme de terror". 
Até o início dos anos 90, o lixo domiciliar descarregado em Gramacho era misturado com hospitalar. Frequentemente os catadores sujavam-se com sangue, espetavam-se com agulhas e deparavam-se com corpos, fetos e animais mortos.
"Furei meu pé com agulha e fique seis meses sem andar. Tive muita sorte de não ter me contaminado com HIV", diz.
Este não seria seu único acidente. Pouco antes de completar 15 anos, ela foi aterrada por uma montanha de lixo despejada por uma carreta. Foi resgatada pelos colegas após passar dez minutos sob quilos de resíduos.
"Foi a pior adolescência que alguém pode ter. Ser adolescente já é muito ruim. Mas ser adolescente e catadora era bem pior. A sensação de injustiça, de fracasso era constante. O massacre de autoestima era diário. Eu sempre quis escapar do lixão e é isso que me move até hoje".

Depressão e superação

Mesmo com todas as dificuldades, Gloria conseguiu frequentar a escola. Sua rotina era pesada. Ela subia a "rampa" (termo usado pelos ex-catadores para se referir ao lixão) às 4h30 e trabalhava até às 13h. Duas horas depois estava na sala de aula e de lá só saía às 19h.
"Às vezes não conseguia tirar o cheiro da mão e conforme suava o cheiro ficava mais forte. Eu não conseguia me enturmar na escola. As meninas da minha idade tinham problema com cabelo, com a unha da moda. Eu eu era do aterro, uma extraterrestre. Nunca contei a ninguém que trabalhava no lixão. Por muito tempo, só me sentia segura ao chegar em Gramacho".
Uma gravidez precoce aos 17 anos agravou o dilema de se aceitar como catadora. Três meses após dar à luz sua filha Lorraine, Gloria tentou o suicídio. Ela revela que sua terapia para a depressão pós-parto veio dos livros recuperados no lixão.
"Meus livros me salvaram. Todo mundo quer escapar do lixão, resta saber que maneira usar. A grande maioria optou por drogas, eu optei por livros. Era minha maneira de escape, de fugir, viver outras vidas. Era o que me dava barato, segurava a onda".
Na estante, ela exibe obras de Umberto Eco, Gabriel García Márquez, Fyodor Dostoyevsky, Machado de Assis, Erico Veríssimo, entre outros. Todos recuperados do chorume.

Polo de reciclagem

O fortalecimento do mercado de recicláveis no Brasil a partir dos anos 90 lhe estimulou a continuar trabalhando como catadora. Durante anos ela recolheu do lixão papel branco e papelão e chegou arrecadar R$3 mil por mês.
Quando o aterro foi fechado, semanas antes da conferência Rio+20, da ONU, Gloria integrou à comissão que negociou uma indenização individual de R$14 mil para os 1,7 mil catadores e financiamento para a construção do primeiro estágio do Polo de Reciclagem de Gramacho.
O local, inaugurado em novembro de 2013, emprega apenas 50 dos 500 catadores que na época do fechamento manifestaram o desejo de continuar trabalhando com reciclagem.
Isso se deve às dificuldades que Gloria enfrenta para captar recicláveis - papel, plástico, papelão, metal, vidro, entre outros, - já que o município de Duque de Caxias, do qual Gramacho é distrito, não realiza coleta seletiva domiciliar.
"A gente se orgulha do polo, mas não funciona como deveria. Abastecimento é um problema diário. Todo dia eu tenho que ligar para empresas pedindo doações de recicláveis, entrar em editais, planejar o transporte. É frustrante, mas não minimiza o tamanho da nossa conquista. Conseguimos fazer o governo olhar e se responsabilizar por toda aquela situação", avalia.
O polo recebe cerca de 50 toneladas de recicláveis por mês, oriundas de parcerias com empresas privadas da Baixada Fluninense e condomínios residenciais. A quantia é ínfima se comparada as 200 toneladas/dia que os catadores recolhiam no lixão.
A escassez afeta diretamente o bolso do catadores, que sentiram uma queda brusca nos rendimentos – de R$ 2,5 mil/mês em média para apenas R$ 500.
O antigo aterro de Gramacho funcionou durante 34 anos em uma área de 1,3 milhão de m², à beira da Baía de Guanabara. O local recebia cerca de 9,5 mil toneladas diárias de resíduos de sete municípios fluminenses, incluindo os do Rio de Janeiro.
Mesmo com todos os obstáculos, Gloria mantém o otimismo.
"O polo é meu sonho, minha missão de vida, é a transição que todo lixão deveria ter. Eu tenho a necessidade de que isso dê certo para finalizar minha história e saber que eu escapei do lixão".