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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Parque Equitativa: um bairro bucólico cada vez mais urbano

Dia desses duas mulheres bateram no portão da minha mãe, perguntando aonde poderiam tomar um banho, pois estavam desde o dia anterior em orações no “monte”, e aonde elas costumavam tomar banho tinha “acabado a água”.
O “monte” é um espaço dentro da Reserva Biológica do Parque Equitativa, usado por grupos evangélicos que costumam passar a noite em orações, aberto no início desse século. Há uma preocupação frequente por parte de moradores com relação aos clarões abertos na mata para receber grupos cada vez maiores, além das fogueiras, mas todos os prefeitos garantiram a preservação do espaço de oração, o que levou a praça inaugurada em 2012, luta antiga dos moradores, a ser conhecida como “praça do monte”, apesar de oficialmente homenagear o “Seu” Bento, morador mais antigo do Parque Equitativa, falecido em 2010.
Outdoor colocado pela prefeitura no ato da inauguração da praça
Outdoor colocado pela prefeitura no ato da inauguração da praça
O bairro possui nascentes mas, diferente da Taquara, não possui cachoeiras, e por isso as frequentadoras estavam em busca de uma vizinha solidária que lhes cedesse um espaço para tomar banho. E assim como a maioria dos bairros do 3º distrito, os moradores contam apenas com seus poços artesianos, pois não existe água encanada.
Por conta da preocupação com a água, em 2002 foi criada a AMAPE – Associação de Moradores e Amigos do Parque Equitativa, que mobilizaram a população principalmente para combater a instalação de uma mineradora na mata. Assim como toda grande empresa, a mineradora vinha com o discurso de que geraria emprego, mas a luta pela água foi maior e o povo conseguiu impedir que a mineradora fosse instalada. Outra reivindicação da AMAPE era a pavimentação através de paralelepípedo, o que garantiria a característica bucólica do bairro, mas a prefeitura quis economizar e optou por asfaltar as ruas.
A partir do asfaltamento, ocorrido em 2006/2007, a criminalidade só aumentou. Há constantes assaltos, quase diários, e não há policiamento. Uma parte do bairro, já com divisa à Santa Cruz da Serra, optou por colocar vigias remunerados controlando o fluxo de veículos. Recentemente, também por conta do asfalto e do perfil calmo do bairro, várias autoescolas levam seus alunos para treinarem direção nas intermediações da praça, o que fez aumentar muito o tráfego, ameaçando as crianças que outrora corriam livremente pelas ruas, além da poluição.
Recentemente o bairro tem sofrido grandes transformações devido à especulação imobiliária. Sítios com terrenos bem extensos têm dado lugar a casas cada vez menores, e até a Caixa Econômica construiu um condomínio na entrada da Rua Diderot/José Bonifácio, que leva ao “monte”. Com isso o bairro que há tempos era conhecido por ser de veraneio tem ficado cada vez mais populoso. E para agravar, ainda há posses e loteamentos avançando mata a dentro. O Conselho não tem se reunido na atual gestão municipal e a AMAPE perdera a representatividade há alguns anos.
Tudo leva a crer, portanto, que a mata está com os dias contados e o bairro cada vez mais irá se urbanizar. Pensando nessas questões, criei um álbum no Google +, em constante construção, para registrar algumas características ali encontradas e preservar a memória que teima em permanecer viva, apesar dos pesares.
(Postado por  em março 7, 2014)